sábado, 2 de abril de 2011

Nenhuma agressão ficará sem resposta!




Gritamos ni una más altas ya
alza tu voz con rabia denuncia social
denuncia social como estaca de metal
porque el silencio es complicidad
de su santa voluntad
hay un millon de gritos ahogados en tu ciudad [1]


Escrevemos este texto devido a uma série de acontecimentos que nos levaram a essa reflexão. Todos os acontecimentos referem-se à atuação de movimentos sociais e a situação de “radicalização” em suas ações.

O ápice, que nos levou a “por a mão na massa”, foi a descoberta de que um conhecido militante da Esquerda, mais especificamente do Movimento Passe Livre - São Paulo, havia sido autor de várias agressões a mulheres. Ameaças de morte, outros tipos de agressões verbais, perseguição, invasão de domicílio, ameaça com faca, etc.

Algumas feministas se organizaram, e tornaram pública a agressão. No último ato, ocorrido no dia 30 de março, juntas, realizaram a denúncia abertamente durante a manifestação, e vocês podem ter acesso aos materiais nos links a seguir:

http://feministascontraoaumento.noblogs.org/2011/03/31/ciao-mondo/ Texto do Panfleto que fizeram; http://feministascontraoaumento.noblogs.org/2011/04/01/sp-escracho-contra-agressor-machista-30032011/ vídeo da ação.

Não tardaram para aparecer comentários contra a atitute tomada pelas feministas. Segundo os “críticos”, elas humilharam o rapaz publicamente, por um “erro do passado”, por uma “briga de amor”, agiram como uma “polícia moral”, pondo em risco todo o movimento. Alguns ainda satirizaram a manifestação e a campanha.

O choque pelo surgimento dos que são a favor de que se esqueça tudo dentre os militantes da esquerda deve-se, em um primeiro momento porque: a agressão às mulheres só é chamada de “briga de amor” ou “briga de casal” pelos agressores, ou por quem compactua com eles. O antigo ditado “Em briga de marido e mulher não se mete a colher” mostra muito bem esse pensamento, que só serve para perpetuar o palco da maior parte das violências. A violência conjugal tem de ser tratada como um problema social e de saúde pública:

“Esse informe relata que 25% das mortes de mulheres em idade fértil estão associadas à violência sendo que mais de 60% delas foram cometidas por seus companheiros” [2]

Segundo: afinal, como devemos reagir frente a um agressor (que não agrediu somente a uma - o que já seria inadimissível -, mas a mais de três mulheres)?

E lembrando sempre que esse não é um problema íntimo, que deve permanecer na esfera do privado. Ele é posto assim mais pela atitude conivente que muitos adotam para com o agressor (com as justificativas de que seriam “problemas do amor”). O quadro nacional mostra as reais proporções da violência contra a mulher:

“Dentre as formas de violência mais comuns destacam-se a agressão física mais branda, sob a forma de tapas e empurrões, sofrida por 20% das mulheres; a violência psíquica de xingamentos, com ofensa à conduta moral da mulher, vivida por 18%, e a ameaça através de coisas quebradas, roupas rasgadas, objetos atirados e outras formas indiretas de agressão, vivida por 15%.12% declaram ter sofrido a ameaça de espancamento a si próprias e aos filhos e também 12% já vivenciou a violência psíquica do desrespeito e desqualificação constantes ao seu trabalho, dentro ou fora de casa. Espancamento com cortes, marcas ou fraturas já ocorreu a 11% das mulheres, mesma taxa de ocorrência de relações sexuais forçadas (em sua maioria, o estupro conjugal, inexistente na legislação penal brasileira), de assédios sexuais (10% dos quais envolvendo abuso de poder), e críticas sistemáticas à atuação como mãe (18%, considerando-se apenas as mulheres que têm ou tiveram filhos).[3]


Aparentemente, ele não chegou a bater em nenhuma delas (caracterizando sua ação criminal como “Violência branda”). Isso, para os que o defendem, é um indício de que não houve agressão. Gostaríamos de perguntar: se ele tivesse desfigurado as mulheres, aí sim seria agressão? E a agressão psicológica, não é agressão? E um homem que ameaça uma mulher com faca, a ameaça de morte, invade a casa dela, se tiver a oportunidade, não pode passar para o pior?

Vale lembrar, também, que muitas vezes os agressores são tidos como monstros, ou sóciopatas, e, depois de tomar conhecimento de uma agressão, muitas pessoas dizem coisas como: “nossa, mas é um moço tão bom...”, ou “não acredito que ele fez uma coisa dessas!” . Relembrando Heleieth Safiotti:

“(...) O processo de vitimização, ao contrário, apresenta-se às pessoas em sua dimensão concreta. Trata-se do pai que seduziu a filha de 8 anos, com ela mantendo relações sexuais durante anos até que, aos 14 ou 15 anos de idade, a garota engravida. Trata-se do velhote de mais de 60 anos que, a preços módicos, utiliza-se sexualmente do office-boy da empresa em que trabalha. Trata-se da senhora de mais de 70 anos, estuprada pelo jovem que assaltou sua residência. A extrema concretude dos fatos induz as pessoas a pensarem os agressores como monstros, como exceções, como doentes. Da mesma maneira são vistos os pais ou responsáveis que se conduzem de forma negligente ao cuidar de crianças ou lhes impor maus-tratos.

De fato, para as pessoas cuja ocupação não facilita o contato com esta cruel realidade, a vitimização (...) quando chega ao seu conhecimento, adquire contornos de inusitado, de esporádico, de excepcional. Quem jamais lidou com o fenômeno não tem idéia de seu significado estatístico e de seus efeitos devastadores. O objetivo nuclear desta introdução consiste em mostrar que, tal qual como o processo de vitimação, o de vitimização tem suas raízes numa ordem social iníqua, na qual as relações sociais são permeadas pelo poder. [4]

Pois é, os agressores não precisam ser doentes, loucos, ou criminosos demoníacos. São pessoas "normais", são namorados, maridos, amigos. São homens.

Como esperam os homens dentro da esquerda (nossos companheiros, não?) que as mulheres reajam frente a isso?

Uma outra grande questão que fica é: as feministas estão sendo criticadas por terem levado a público a denúncia, por estarem mostrando a todas e a todos que existe um agressor dentro da esquerda, que aquele que pensávamos ser aliado pode atacar sua namorada, sua ex-namorada, ou suas companheiras de militância. Agora, as feministas são acusadas de sujar o nome do MPL, de “dividirem o movimento” .

Pedem que esperemos pela justiça (que somente para lembrar é completamente machista, sexista e homofóbica), que fiquemos quietas, usando como justificativa o fato de ele já ter se desculpado (como isso bastasse para uma agressão sexista), e fez tratamentos por muitos tempos para se recuperar. Ou seja: querem barrar qualquer ação e mobilização que seja, colocando panos mornos sobre os casos.

Não pensamos que “pedir desculpas” seja o suficiente, não achamos que a justificativa de transtornos - quaisquer que o sejam - amenize o problema. É um caso claro de machismo, sexismo, e entendemos que é impossível deixar passar a situação e manter dentro do movimento um homem que trate uma mulher dessa maneira, transitando entre nós no meio dos Atos, em reuniões, empunhando a bandeira de um movimento social. Tampouco pensamos ser coerente um grupo de esquerda dizer que as feministas são muito "radicais" por exigirem uma manifestação do MPL e a expusão do agressor, justamente por ser incoerente a permanência de um agressor machista dentro de um movimento de esquerda.

Outro ponto polêmico é o de que a critica à radicalização feita contra nosso movimento é a mesma que a esquerda sofre da grande mídia quando atua em atos organizados, tomando as ruas. A PM diz que reprime porque extrapolamos os “limites legais” da mobilização, e que deveriamos recorrer aos mecanismos legais ao invés de parar o trânsito. Com disse o policial no depoimento depois de um dos atos contra o aumento da passagem que acabou em uma ação violenta da PM:

Passagem é muito cara; verdade, e quando pacífica, toda manifestação é legitima, mas sempre tem uns oportunistas no meio, geralmente de bandeira vermelha. [5]

Ora, e agora estamos sendo acusadas da mesma forma? De que devemos entender, compreender e esperar a ação legal quando um militante de esquerda agride as mulheres com as quais ele se relaciona?

As feministas, sempre que fazem qualquer tentativa de radicalizar suas ações, são tidas como histéricas, radicais, inconseqüentes, ou como foras da realidade, que não estão entendem como é que as coisas são. Tentam nos convencer de que tudo pode ser resolvido com uma conversa e um pedido de desculpas. Essas mesmas colocações são jogadas em cima de qualquer movimento de esquerda pela grande mídia, pela direita.

Por isso entendemos que a divulgação desse caso, visando a ampliação da mobilização, e a exigência de que o MPL (Movimento Passe Livre) posicione-se sobre o caso são imprescindíveis. Frisando também que as críticas dos homens sobre a ação do Movimento Feminista são infundadas em três pontos: o primeiro deles no que esperam que lutemos pacificamente pelos nossos direitos, pela igualdade e contra a violência a qual estamos expostas. O segundo deles é que nenhum homem tem direito de legislar sobre como o movimento atua, suas bandeiras, pautas, métodos. É um movimento de mulheres, tocado pelas mulheres e mantido pelas mulheres com a solidariedade dos nossos companheiros. O terceiro, o argumento de que nós “dividimos o movimento”, cai por terra quando mostra-se que, na realidade, o fim dos preconceitos machistas implica numa maior participação da mulher na política, fortalecendo os movimentos sociais, e não enfraquecendo-os.

Por todos esses motivos, reivinficamos,por fim, que seja reconhecida a legitimidade da auto organização das mulheres, suas ações políticas, e deixamos claro: nenhuma agressão ficará sem resposta!



[1] BKC - “Naufragas”. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=l82PvHPputs
[2] LAMOGLIA, Claudia Valéria A., MINAYO, Maria Cecília S. Violência conjugal, um problema social e de saúde pública, disponível em: http://br.monografias.com/trabalhos903/violencia-conjugal/violencia-conjugal2.shtml
[3]Portal Violência Contra a Mulher. Disponível em :http://www.violenciamulher.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=579:dados-nacionais-sobre-a-violencia-contra-as-mulheres&catid=7:dados-e-pesquisas&Itemid=4
[4] AZEVEDO, Maria Amélia e GUERRA, Viviane Nogueira de A. (org). Crianças Vitimizadas: A Síndrome do Pequeno Poder, Iglu Editorial Ltda, 1989.
[5] Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=AGW0LLbIiIo

quarta-feira, 23 de março de 2011

Quem está por detrás das estatísticas

Sou mulher, lésbica, e de esquerda. Já escutei muito que era um desejo de ser “minoria”, já escutei muito que é paranóia, já escutei muito sobre liberdade sexual e de que vivo em uma democracia.

Nunca acreditei nisso, porque vivo na pele a discriminação por ser uma mulher, por ter nascido com uma vagina; Me fizeram objeto de decoração, me deram um estereótipo, um comportamento, um biótipo, me deram “minhas” palavras. Sinto todos os dias um medo de demonstrar meus afetos porque sou lésbica. Ainda que viva em um ambiente ligeiramente libertário, que toda minha família saiba, sofro na pele a discriminação do meu amor. Não somente quando estou com outra mulher, mas, também, em círculos sociais, nos quais você fica cuidando para não ser tão afetuosa e suas amigas não acharem que você está dando em cima delas, em usar certo tipo de roupa para que não fiquem me chamando de “caminhoneira”. Sou de esquerda, militante. Acredito na revolução e a construo diariamente, escuto sempre que somos desocupados, que somos “saudosistas de 68”

E essas três coisas, que são meu tripé de identidade, que me fazem ser o que sou e que garantem que nunca tenha deixado a vida, são exatamente pelas quais sinto medo. Porque vivo em um Estado terrorista de bandeira hasteada, contra meu gênero, minha sexualidade, minha posição política. Não posso andar livremente, não posso amar livremente, e não posso me expressar livremente.

Todos os dias vejo estatísticas e dados sobre violência contra a mulher e contra LGBTTT, todas oferecidas de uma forma mecânica, impessoal, sem citar nome. Tod@s nós convertidos em uma cifra impressa no papel, em mera estatística. Uma legião de sem rostos que tem todos os dias sua dignidade arrancada, a vida ameaçada porque paira um consenso (hipócrita, porque poucos assumiriam isso) de que não somos gente, de que somos pequenas aberrações que a psicanálise, a religião, a ciência podem curar. Um consenso de que os “cidadãos de bem” podem pedir a seu deus que nos cure do nosso amor “errado”, de que podem pedir à ciência deles alguns tratamentos para nos livrar desse “mal”, de que podem explicar por teorias nossa “atração”.

Esses “cidadãos de bem”, fervorosos defensores da moral e dos bons costumes, mantém seus filhos longe de nós, nos impossibilitam a união civil, a adoção de crianças, a educação sexual para homossexuais. De acordo com sua cartilha estúpida, somos seres promíscuos, sujos. Por isso podemos ser espancad@s, violentad@s, estuprad@s, xingad@s. Tudo de acordo com a boa moral do homem branco e heterossexual.

Mas, por detrás de cada número, existe um rosto, escondido da família “de bem”, que não entra nas menções do casal Boner.

Hoje tomei ciência de que um desses rostos era de um conhecido meu, um companheiro militante, uma pessoa que vejo há um ano todos os dias. Espancado na esquina da sua casa por ser gay. Espancado na esquina da sua casa por não seguir um padrão. Espancado na esquina da sua casa por dois “cidadãos de bem”, que transitam livremente pelas avenidas da cidade.

Além dos hematomas, da tristeza, da humilhação, esse companheiro tem também em mãos um B.O. no qual a delegacia não quis registrar a queixa como agressão por homofobia. E isso levaremos todos para o resto das nossas vidas.


Me restam muitas lágrimas de desespero, um ódio por toda essa hipocrisia social, me resta um desejo gigante de que a revolução venha, me resta que seja somente possível um dia sair a rua sem medo. Me resta esperar menos hipocrisia. Me resta esperar um momento em que ninguém acredite que seu amor/atração/afeto por outrém é maior e mais legítimo do que o nosso. Me resta, ao menos, não escutar mais que não tenho motivos para militar, para fazer da minha vida a militância e meu único desejo a revolução.

domingo, 20 de março de 2011

Obstetrícia da USP, onde ficamos nisso?

A saúde da mulher sempre foi tida como situação secundária, bem como sua figura nas ciências biológicas, como todas nós sabemos. O curso de Medicina da USP, por exemplo, trata pouquíssimo ou nada das questões que concernem a saúde da mulher: dentro de toda a grade curricular, somente quatro disciplinas tocam especificamente em pautas femininas. Enquanto doenças como o câncer de próstata recebem mais verbas públicas para pesquisa e tiveram seu diagnóstico e tratamento bastante desenvolvidos nos últimos 5 anos, o câncer de mama, por exemplo, tem suas pesquisas mantidas graças a investimentos majoritários do setor privado, e muito pouco ou quase nada se avançou.

A saúde da mulher e suas patologias e carências específicas pouco recebem atenção. Nas últimas décadas vemos o fenômeno das cesáreas crescer vertiginosamente (48%, sendo que na rede particular vão de absurdos 70% a inimagináveis 90%, quando a Organização Mundial de Saúde preconiza que o
número de cesáreas não ultrapasse os 15%) desacompanhado de qualquer auxílio ou possibilidade de escolha por parte das mães, somado ao alarmante dado de 25% das mulheres que alegam terem sofrido algum tipo de maltrato enquanto estiveram hospitalizadas para darem a luz.

“Na década de 90, as estatísticas do Ministério da Saúde apontavam que as complicações do trabalho de parto representavam a terceira causa de internação, ficando também em terceiro lugar como responsáveis pelos maiores gastos globais com internação hospitalar.”

Frente a isso, o curso de Obstetrícia da USP (o único do Brasil inteiro) foi re-fundado com o intuito de prestar atenção a fatos geralmente deixados de lado nessa busca por melhor atendimento às nossas
necessidades no que tange a maternidade e o parto, seguindo o modelo europeu. Esse mesmo curso existiu até 1971 na USP, quando é fechado devido ao artigo “6º do Estatuto da Universidade, que não admitia a “duplicação de meios para fins idênticos ou equivalentes no mesmo município”. Esse princípio se mantém no artigo 11º do atual Estatuto da Universidade de São Paulo.“ Alegaram, portanto, que o curso de Enfermagem era capaz de formar obstetras e que, portanto, o curso de Obstetrícia feria o estatuto vigente.

Mas se compararmos as duas grades curriculares do curso, veremos que a proposta do curso de Obstetrícia diferencia-se e muito do de Enfermagem [1], inclusive na abordagem realizada sobre o parto, a gravidez, o pré-natal e o acompanhamento da mãe e do recém-nascido. Logo, percebemos que o curso de enfermagem não abarca as mesmas questões.

A reabertura do curso, contudo, também não conseguiu garantir uma melhora palpável no atendimento à mulher. Além do pouco tempo de existência do curso (completaria seis anos em 2011), começamos pelos problemas em se reconhecer o bacharelado, e conseqüentemente, de ser empregado depois de completar a graduação, sua localização em um campus novo da USP (EACH) que recebe menos visibilidade que outros, o que gera um vestibular pouco concorrido e o faz entrar na lista dos cursos de baixa demanda social, as seqüentes reformulações em sua grade, dentre outros. Existe ainda a problemática de que essa profissão é menos valorizada pelo fato de que nosso sistema de saúde está atrelado também ao sistema, e, portanto, visando o acumulo de capital. Ou seja, é preciso fazer tudo no menor tempo possível com o maior ganho:

“cesárea leva 20 minutos, enquanto no parto vaginal o médico tem que permanecer no hospital por
12 horas ou mais.”


“Médicos e hospitais quase sempre são bem melhor remunerados pela cesárea do que pelo parto vaginal.
Estudos dos EUA mostram que as candidatas mais prováveis à cesárea são mulheres brancas, casadas, que possuem plano de saúde privado e que dão à luz em hospitais particulares.”

Logo, a obstetrícia não corresponde a esse sistema hospitalar, não sendo interessante sua implementação em larga escala, ou melhor, nem sendo estimulada.  Por esses motivos ele sofre a ameaça de ser fechado, ou ter o número reduzido de vagas no próximo processo seletivo. Ou seja, ao invés de se implementarem medidas que valorizem a profissão, negociar o reconhecimento da profissão devido sua necessidade às mulheres, e realizar uma reforma curricular baseada nas necessidades do corpo discente e docente, Boueri, diretor da EACH, realiza uma afronta à todo um projeto de educação e ensino que reconhece as especificidades e demandas do parto e pós-parto, caracterizando um prejuízo e ataque às mulheres brasileiras. 

Além disso, essa atitude evidência o projeto de reforma divulgado ano passado pelas mídias em geral e apresentado pelo reitor João Grandino Rodas sobre as “modernizações” nas graduações da USP. Mudanças essas que podem começar a acontecer em outros cursos, tal qual Letras, Pedagogia, Geografia,
Filosofia; por não estarem ligados à critérios mercadológicos, nem atenderem a chamada “demanda social”, ou seja, relação candidato/vaga alta.

O Movimento Estudantil da USP vem discutindo desde então o que essas mudanças representam para a Universidade, tentando levar o debate ao maior número possível de alunos. Entendemos que esse ataque que o curso da EACH sofre está vinculado a uma série de reformas que se anunciam e por isso
chamamos tod@s para o ato em solidariedade à Graduação de Obstetrícia e também para marcamos presença e dizer que nós não aceitaremos que nossa educação e saúde sejam leiloadas!

dia 22, terça-feira, às 9h em frente à reitoria!

A reitoria da USP fica no campus Cidade Universitária do Butantã, na rua Anfiteatro, 513.

Divulgamos aqui, também, o link do abaixo-assinado contra o fechamento do curso: http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/assinar/8452




[¹] As duas grades curriculares dos cursos: Enfermagem: http://www.ee.usp.br/ensino/graduacao.asp e Obstetrícia: http://www.each.usp.br/obstetricia/curriculo.htm

quinta-feira, 10 de março de 2011

A linguagem da opressão

“Não basta inquirir como as mulheres podem se fazer representar mais plenamente na linguagem e na política. A crítica feminista também deve compreender como a categoria das “mulheres”, o sujeito do feminismo, é produzida e reprimida pelas mesmas estruturas de poder por intermédio das quais busca-se a emancipação.”[1]

Um dos nossos principais meios de luta é a linguagem, pois graças a ela conseguimos nos organizar e nos agregar em torno da causa. A linguagem, por sua vez, está diretamente sujeita ao falante, porque é justamente ele que a constrói.

Ou pelo menos deveria ser.

Por enquanto, quem – ainda – a dita são os homens brancos e heterossexuais. Acontece que esses, a fim de se manterem no poder, aprofundam os meios de opressão ligados ao falante e ao modo que se expressa. Tudo isso porque a linguagem da opressão procura ser sutil (sem muito sucesso, mas mais sutil que a agressão física) e, portanto, é menos mal vista.

“Com a equação lacaniana de "a natureza das coisas" e "natureza das palavras", o sexismo situa-se na própria linguagem.”[2]

A sociedade, fundada sobre os eixos do masculino e da heterossexualidade, encontra formas menos óbvias para expor seus preconceitos. Isso não significa que outras formas de opressão e dominação estejam diminuindo ou acabando, nem que o preconceito chamado “lingüístico” (que é, sim, um preconceito social) seja um preconceito novo ou recente.

"Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua" (James Milroy)[3]

Sim, é claro que antigamente havia variantes na língua. E que eram exatamente estas que distinguiam as classes sociais. A situação hoje é bastante similar, embora muitos tendam a dizer que não, que ninguém desqualifica os argumentos de outrem por seu português incorreto. Essas pessoas ou não são oprimidas ou não discutem ou falam o que escutam sem ter o mínimo de embasamento científico.

O que acontece é que a sociedade nos impõe certas regras. Mas são essas regras apenas regras gramaticais? Debochar da fala de uma pessoa é natural? De onde vieram esses valores? Quem dita a norma culta? Essas perguntas já foram respondidas no início do texto: são os doutos, isto é, os homens brancos e heterossexuais.

A linguagem passa (passa?) a ser apenas um jogo de prestígio e poder. Se sou um homem de uma classe superior e cometo alguns deslizes da norma culta, tudo bem, sem problemas. Se sou uma mulher, que ocupa um cargo considerado, pela sociedade, masculino e cometo um erro serei corrigida pro todos os homens que me escutaram.

“As mulheres são mais cuidadosas que os homens em usar a gramática correta(...)Há, porém, do ponto de vista sociolingüístico, uma explicação mais óbvia para o silêncio e fala diferente das mulheres que a "falta" do falo simbólico de Lacan. Não surpreende que as mulheres estejam silentes considerando-se a sua falta de poder. É certo que o direito de falar foi conseguido em parte. Mesmo quando o direito das mulheres de falar em público não é abertamente contestado, poucas mulheres falam. Em suas conversas íntimas com membros do sexo oposto, as mulheres falam menos, menos freqüentemente, e são mais interrompidas. Os sociólogos situaram essa "incompetência" não numa identidade simbólica da mulher, mas na sua situação como impotente. Se os tópicos que as mulheres apresentam fracassam, não é porque sua capacidade simbólica esteja prejudicada, mas porque os homens não se dão ao trabalho de reciprocamente responder ao que elas dizem.[4]. O ponto que gostaria de ressaltar é que o preconceito lingüístico não passa de um preconceito social: de classe, de gênero e/ou de raça.

Imaginem agora que uma mulher assume o cargo de presidenta do país. Imaginem que essa mulher, ao participar de debates na televisão não se porta como esperam que uma mulher se porte. Não é delicada e simpática, é bastante enfática ao dizer o que defende (mesmo com as minhas discordâncias com o PT, não é algo que dê para negar). O que acontece?

A mulher que não seguiu os padrões de mulher não é mulher, simples assim. Um preconceito muito misógino, por sinal. Questionam sua sexualidade dizendo que ela foi agressiva no falar. Seu oponente, homem branco e heterossexual (que coincidência, não?), ao ser igualmente agressivo no falar é enfático e sabe defender suas idéias. Ela é, no mínimo, grossa.

Dilma nadou contra a corrente, assim como a Marina – embora de formas diferentes. As duas se colocaram para falar. Afinal “Falar é assumir poder, e as mulheres, como observou Beauvoir, deixam de se afirmar nesta como em outras áreas”[5].

A linguagem é um produto político-social e, como tal, ela não apenas dá mais crédito a quem está “no comando”, como também procura destruir aqueles que seriam seus “subordinados”. Assim sendo, parece óbvio que a linguagem é machista, homofóbica e racista.

“Há apenas uma linguagem e nela as mulheres estão em significativa desvantagem. Elas falarão sempre com uma autoridade de empréstimo e sempre terão problema com o conhecimento analítico-racional do "que se diz".”[6]

A nossa construção social nos impõe um estilo de fala, de expressão. E não apenas a nós, mulheres, mas a diferentes classes sociais e posições sociais. Quanto maior seu prestígio, mais “correto” você deve falar. O resultado? Uma estagnação social baseada na língua erudita que, cá entre nós, sequer existe.

Como mulheres, devemos falar em tom dócil e amável. Não podemos ser agressivas, afinal, isso é coisa de homens. É sabido também que, por sofremos coerção dos homens, muitas vezes temos receio de nos posicionarmos. Isso quando há qualquer relação de poder, na verdade. Chefe e empregado, pai e filho. Mas entre o sexo masculino poderoso e o feminino subordinado, isso aparece ainda mais. Além do receio de sermos coagidas, há a coerção em si. Quando nos repreendem por falarmos de determinado modo, ou fazem uma piada por errarmos uma palavra, pleonasmos,etc.

“As mulheres falam cada vez menos freqüentemente que os homens. As mulheres são mais cuidadosas que os homens em usar a gramática correta, são mais conservadoras quando se trata de inovação estilística, usam adjetivos de emoção de preferência a de movimento, formam metáforas conflitantes, ambivalentes, de preferência a lugares-comuns. As mulheres mostram preferência também por estruturas modais como "poderia ter sido", indicando incerteza e indecisão. Outras diferenças, empiricamente menos estabelecidas mas observadas, são o uso, pelas mulheres, de adjetivos "vazios" tais como "encantador" ou "amável" ou de perguntas reiterativas, como "entendeu?", "certo?", para atenuar a força afirmativa, além da tendência das mulheres a serem mais polidas e mais receptivas.”[7]

O patriarcado nos oprime na expressão. Vivemos em uma suposta democracia, que garante os mesmos direitos a todos (essa é a hora das risadas), mas não nos é permitido falar.

Temos também a questão das palavras comuns de dois gêneros, aproveitando o ensejo. Como quem domina a linguagem dita culta são os homens, temos um certo receio quanto a algumas mudanças naturais da língua.

Não apenas as mudanças como você>>cê, mas também mudanças necessárias, de posicionamento político mesmo, como os gêneros das palavras. Não há nenhuma explicação razoável (lembrando que “mas é regra gramatical” não vale, pois as línguas estão em continua mutação) para não se mudar os plurais e as palavras “comuns de dois gêneros”.

Cito aqui a Pilar del Rio em uma entrevista bastante conhecida:

“Pilar del Rio: Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.

João Céu e Silva: Mas a palavra não existe!

Pilar del Rio: Porque é que entre uma mulher e um animal tem primazia o gênero do animal? Porque dizem “Vêm os dois” se é uma mulher e um cão quem vem? Em vez de dizerem que não se pode dizer presidenta, mas ministra sim, solucionem essa injustiça e canalhice. Que os doutos acadêmicos resolvam um conflito que tem séculos porque não têm sensibilidade para apreciar a questão ou nem se aperceberam. Por isso, justificam com leis gramaticais ou simplesmente silenciam e riem-se das pretensões da mulher porque se acham superiores. Em quê?”(grifos meus)

Não vamos pensar que isso tudo é pouca coisa. Talvez seja pouco, se comparado com todos os outros preconceitos e abusos que sofremos. Mas é um pouco que não abro mão de lutar também. É o pouco que me garante uma mínima liberdade: a de falar. E não me calo ou deixo cair por uma correção, zombaria ou interrupção. Bater o pé é a única solução.

Precisamos fazer com que haja uma mudança de pensamento a respeito da língua e, principalmente das relações entre aqueles que a utilizam. É fato que as línguas mudam. A sociedade precisa mudar também.

colaboração de Paula Penteado

[1] BUTLER, Judith, Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, página 19

[2] NYE, Andrea, Uma linguagem da mulher in Teoria Feminista e as Filosofias do Homem página 204

[3] BAGNO, Marcos, Mídia, preconceito e revolução in A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira, página 13

[4] NYE, Andrea, Uma linguagem da mulher in Teoria Feminista e as Filosofias do Homem página 206

[5] NYE, Andrea, Uma linguagem da mulher in Teoria Feminista e as Filosofias do Homem página 206

[6] NYE, Andrea, Uma linguagem da mulher in Teoria Feminista e as Filosofias do Homem página 204

[7] NYE, Andrea, Uma linguagem da mulher in Teoria Feminista e as Filosofias do Homem página 205

terça-feira, 8 de março de 2011

O 8 de março é vermelho

“O dia das operárias de 1917 foi uma data memorável na história. Nesse dia, as mulheres russas levantaram a tocha da revolução proletária e atearam fogo ao mundo. A revolução de fevereiro acabara de começar". (Alexandra Kollontai) [1]

Com a chegada do Dia Internacional (de luta) da Mulher, nós, enquanto feministas, temos o dever de colocar algumas discussões em pauta, pois com a transformação do 8 de março em uma data bastante comercial (que,além de tudo, joga com a função social de sermos mulheres femininas, dóceis e perfumadas), muitas pessoas acreditam que não há mais sentido em comemorá-lo (como se fosse realmente uma comemoração...). Há quem diga, ainda, que o 8 de março é sexista e que deveria haver um dia do homem, mas esse discurso vem daqueles que acreditam que o movimento feminista busca escravizar os homens (e outras bobagens), portanto, nem vale a pena ficar muito tempo discutindo isso.

O que queremos discutir aqui é justamente a origem dessa data e resgatar seu caráter original. Em primeiro lugar, não é uma data que nos foi cedida como uma homenagem, diferentemente de outras, como o dia dos pais, das mães, dos namorados etc. O peso que traz o 8 de março não é para nos presentear, ou mesmo nos parabenizar. A vitória não é ser mulher, pura e simplesmente, mas sim lutar para sermos mulheres à nossa maneira, lutar contra todos os tipos de opressões. Uma coisa que deveria ser óbvia, mas muitos não enxergam é que mulheres e homens não vivem em pé de igualdade; por isso o dia da mulher ser um dia de luta. É um dia simbólico que lembra (ou deveria lembrar) a todos que vida de mulher não é fácil. O Dia Internacional de Luta da Mulher é uma conquista nossa, algo que foi desencadeado justamente pela luta feminista.

Porém, outra coisa que devemos lembrar é que ele não é um simples dia de luta feminista. Ele é um dia de luta feminista e socialista. E é aqui que entram as origens do Dia Internacional da Mulher.

Há um mito de que o Dia Internacional da Mulher tem sua origem em uma greve de tecelãs no ano de 1857, em Nova York. A grevistas teriam sido presas dentro da fábrica e os patrões ateado fogo ao lugar, resultando em mais de 130 trabalhadoras mortas. A data teria sido marcada para relembrar esse dia.

Isso, todavia, é a história que nos contam nas escolas e se divulga na mídia. A realidade é que não existem evidências históricas da existência dessa greve. Diversas foram as pesquisas feitas sobre o assunto, entre elas, a de Renée Coté, autora do livro O Dia Internacional da Mulher – Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas. A autora buscou referência à greve de 1857 e à morte das mulheres em vários jornais, inclusive operários, mas não encontrou nada.

"Em 3 maio de 1908 em Chicago, nos Estados Unidos, se comemorou o primeiro "Woman's
day” (Dia da Mulher), presidido por Corinne S. Brown, documentado pelo jornal mensal The Socialist Woman, no Garrick Theather, com a participação de 1500 mulheres que "aplaudiram as reivindicações por igualdade econômica e política das mulheres; no dia consagrado à causa das trabalhadoras". Enfim, foi dedicado à causa das operárias, denunciando a exploração e a opressão das mulheres, mas defendendo, com destaque, o voto feminino. Defendeu-se a igualdade dos sexos, a autonomia das mulheres, o direito de voto para as mulheres, dentro e fora do partido.

Já em 1909, o “Woman's Day” foi atividade oficial do partido socialista americano e organizado pelo comitê nacional de mulheres, comemorado em 28 de fevereiro de 1909. O material de publicidade da época convocava o "Woman suffrage meeting", ou seja, um encontro em defesa do voto das mulheres, em Nova York. Renée Coté apura que as socialistas americanas sugerem um dia de comemorações no último domingo de fevereiro. Assim, o “Woman's day”, no início, registra várias datas e foi ganhando a adesão das mulheres trabalhadoras, inclusive grevistas e teve participação crescente.

Em 1910, os jornais noticiaram a comemoração do “Woman's day” em Nova York, em 27 de fevereiro de 1910, no Carnegie Hall, com 3000 mulheres, onde se reuniram as principais associações em favor do sufrágio. O encontro foi convocado pelas militantes socialistas mas contou também com participação de mulheres não socialistas. Também participaram dessa comemoração várias operárias do setor têxtil que há poucos dias haviam terminado uma longa greve, que durou de novembro de 1909 a fevereiro de 1910, terminando 12 dias antes do Woman's Day. Essa foi a primeira greve de mulheres de grande amplitude nos Estados Unidos, denunciando as condições de vida e trabalho, e demonstrou a coragem das mulheres costureiras, recebendo apoio massivo do movimento sindical e do movimento socialista." [2]

Ou seja, não só não existe a mítica greve de 1857, como toda a luta das mulheres estadounidenses é feminista e claramente classista.

No mesmo ano de 1910, no Segundo Congresso Internacional de Mulheres Trabalhadoras, Clara Zetkin, militante socialista alemã, apoiando-se na experiência das operárias dos Estados Unidos, propõe que exista um Dia Internacional da Mulher Operária, ou Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras, sem uma definição de dia. A informação mais exata (pois há muitas) é de que ficaria a cargo de cada país escolher a melhor data. As Alemãs escolheram o 19 de março:

No dia 19 de Março no ano da revolução de 1848, o rei Prussiano reconheceu pela primeira vez a força do povo armado e concedeu perante a ameaça de uma insurreição proletária. Entre as várias promessas feitas, que mais tarde não manteve, estava a introdução do voto para as mulheres. [3]

Alexandra Kollontai, em seu texto “Uma celebração militante” [4], afirma ter sido oficializado o 8 de março como o Dia Internacional da Operária em 1913 (primeiro ano em que comemorou-se o dia na Rússia, aliás). Por outro lado, há informações de que em 1914, na Alemanha, as comemorações tenham sido realizadas no 8 de março somente pelo fato de que essa seria a melhor data.

Em 1917, na Rússia, em meio a grandes e diversas manifestações femininas, eclode uma greve de operárias têxteis justamente no Dia Internacional da Mulher, 23 de fevereiro no calendário russo, correspondente ao nosso 8 de março. Trotski descreve esse acontecimento como uma mobilização de papel decisivo para a revolução que se seguiria pelos próximos dias:

Trotski conta que o dia 23 de fevereiro (8 de março), era o Dia Internacional da Mulher. Estavam programados atos, encontros etc. Mas não se podia imaginar “que o Dia da Mulher pudesse inaugurar a revolução”. Estavam sendo pensadas ações revolucionárias, mas sem data prevista. Mas pela manhã, a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixam o trabalho de várias fábricas e enviam delegadas para solicitar o apoio à greve... “o que se transforma em greve de massas.... todas descem às ruas. [5]

Por fim, em 1921, na Conferência Internacional das Mulheres comunistas, coloca-se o 8 de março como data oficial do Dia Internacional da Mulher Operária, em homenagem ao levante das trabalhadoras russas.

A data, portanto, como podemos observar, não é um dia do calendário que nos foi ironicamente dedicado pelo patriarcado e pelo capitalismo por sermos mulheres. Foi uma data conquistada, pelo feminismo socialista. Uma data que deve ser lembrada como luta por um mundo sem exploração.

O Dia Internacional da Mulher surge como uma proposta socialista, pois a luta da mulher é socialista. Sim, existem vertentes do feminismo que não questionam a sociedade de classes, mas esse feminismo limita-se à conquista de direitos formais iguais aos dos homens. E bem sabemos que isso não basta. A tentativa de retirada do caráter socialista do Dia Internacional da Mulher (aliás, há de se afirmar: a retirada de qualquer tipo de politização, mesmo que não socialista) serve apenas para fomentar ilusões de que as mulheres já tiveram seus direitos conquistados, quando, na verdade, para ter-se direitos, é preciso comprá-los. Bem sabemos que meia dúzia de executivas se deram bem na vida (ainda que sim, sofram de machismo em seu ambiente de trabalho), mas para a mulher trabalhadora ainda há um longo caminho a ser traçado.

É por isso que afirmamos: o 8 de março é classista. Socialista.
O 8 de março é vermelho.



[1] KOLLONTAI, Alexandra. International Women's Day. Disponível em: http://www.marxists.org/archive/kollonta/1920/womens-day.htm
[2] Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida - SOF: Sempreviva Organização Feminista. Disponível em: http://www.sof.org.br/publica/Dia_Internacional_da_Mulher-SOF-Em_busca_da_memoria_perdida-ATUALIZACAO2010.pdf
[3] KOLLONTAI, Alexandra. Uma Celebração Militante. Disponível em: http://www.esquerda.net/dossier/uma-celebra%C3%A7%C3%A3o-militante , texto integral em inglês: http://www.marxists.org/archive/kollonta/1920/womens-day.htm
[4] Idem
[5] Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida - SOF: Sempreviva Organização Feminista. Disponível em: http://www.sof.org.br/publica/Dia_Internacional_da_Mulher-SOF-Em_busca_da_memoria_perdida-ATUALIZACAO2010.pdf

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O mito da docilidade feminina

Já faz algum tempo que pretendia escrever sobre o assunto, mas o momento certo para isso sempre me escapava. Eis que, não faz muito tempo, li o seguinte comentário no twitter, feito por um conhecido militante da esquerda brasileira (cujo nome não vale a pena ser citado), pensando estar elogiando as mulheres:

“O mundo está como está pois sempre foi governado por homens (...) as mulheres são incapazes de cometer as mesmas arbitrariedades que os homens”.

O sentido é: mulheres são seres bons, logo, incapazes de cometerem qualquer tipo de atrocidade. Esse é o papel dos homens. Ao ser questionado, por uma mulher, que dizia “ser tão durona quanto qualquer homem”, o responsável pelo primeiro comentário continuou sua argumentação, até a garota citar Margaret Tatcher. Ao que o rapaz respondeu: “Tatcher é um homem de saias”, afirmação esta que será melhor abordada ao longo do texto.

Como já dissemos no texto de mesmo nome que o blog, “Quem mandou nascer mulher?”, todos nós, homens e mulheres, somos construções sociais. Nascemos machos e fêmeas e, a partir de nossa educação, somos moldados, de maneira a nos encaixarmos nos modelos estipulados para meninos e meninas. Somos, portanto, resultados de um processo histórico, que pode ser diferente dependendo da sociedade em que se viva (sociedades indígenas divergem da nossa, ocidental, por exemplo). É preciso, então, atentar para a naturalização desse processo, pois isso significa tornar naturais “processos socioculturais contra a mulher e outras categorias sociais”[1], uma tentativa de “legitimar a ‘superioridade’ dos homens, assim como a dos brancos, a dos heterossexuais, a dos ricos”[2].

Tratemos, portanto, da construção do mito da docilidade feminina.

Quando pensamos em uma mulher, nos vêm à cabeça determinados valores e imagens: a maternidade, a afetividade, a esposa, a dona de casa etc (isso sem incluirmos a área de cosméticos). Quando não se pensa em esposa ou dona de casa (já que hoje vivemos uma sociedade que consegue, ainda que de maneira tímida, pensar a mulher fora desses papéis), pensa-se, certamente, na fragilidade, no amor, em como as mulheres são seres emocionais, dotados de imensa paciência e atentos a detalhes (inclusive, muitas vezes relaciona-se a mulher somente a profissões que exigiriam essas características, tal qual a enfermagem ou a docência).

Ora, se pararmos um pouco para pensar, este modelo de mulher não é mais do que parte do modelo burguês da família ideal:

“Frágil e soberana, abnegada e vigilante, um novo modelo normativo de mulher, elaborado desde meados do século XIX, prega novas formas de comportamento e de etiqueta, inicialmente às moças das famílias mais abastadas e paulatinamente às das classses trabalhadoras, exaltando as virtudes burguesas da laboriosidade, da castidade e do esforço individual. Por caminhos sofisticados e sinuosos, se forja uma representação simbólica da mulher, a esposa-mãe-dona-de-casa, afetiva mas assexuada, (...)” [3]

À mulher continua imposto o modelo burguês de “esposa-mãe-dona-de-casa”, ainda que não seja nenhuma das três. Ao sexo feminino estão associados o sacrifício, o amor, a bondade, sendo a mulher “identificada à religiosa ou mesmo considerada como santa, à imagem de Maria”. [4]

Ora, o simples fato de esse ser um modelo burguês já nos bastaria para mostrar que essas características não são inerentes à mulher, já que fazem parte de uma sociedade específica, diferenciando-se, portanto, de outras. Voltemos á afirmação do 4º parágrafo: somos construções sociais, resultados de um processo histórico e, trazendo novamente à tona Simone de Beauvoir, “uma sociedade não é uma espécie” [5]. Afirmar a existência de uma natureza feminina significa afirmar uma natureza humana, como se mudássemos apenas na superfície e a cultura não passasse de um epifenômeno [6]. Deixa-se de lado o fato de “(...) Ao contrário do reino animal, imerso na natureza e submetido ao seu determinismo, o humano – no caso, a mulher – é um ser histórico, o único vivente dotado da facudlade de simbolizar, o que o põe acima da esfera propriamente animal (...)” [7]

Citemos alguns fatores que podem deixar tais afirmações mais claras:

Claude Meillassoux, antropólogo francês, afirma estarem as relações de parentesco condicionadas ao modo de produção do grupo. Nas sociedades primitivas de caça e coleta, por exemplo, cada indivíduo era praticamente um ser auto-produtivo, sendo raras as atividades coletivas, estas feitas por adesão voluntária. Nesse sentido, “não havendo necessidade de coesão, os grupos são voluntários, de constituição frouxa, os indivíduos, tanto homens como mulheres, têm ampla autonomia e mobilidade entre os grupos, e os produtos do sempre efêmeros acasalamentos são tomados como filhos do grupo, uma vez feito o desmame, a prole nem sempre acompanhando os arbitrários deslocamentos dos pais. Os laços são de adesão, e não de parentesco, pois estes significariam estruturas diretivas da vida de cada indivíduo e de cada geração, isto é, laços parentais ligando indivíduos e gerações, o que não ocorre nesse tipo de agrupamento humano”. [8]. A mobilidade dos indivíduos é essencial para sua reprodução, pois embora os grupos sejam auto-produtivos, não são auto-reprodutivos, sendo necessárias mais pessoas para isso. No entanto, a partir do momento em que se introduz a agricultura no modo de produção, tais relações mudam. Uma vez feito o “investimento”, os indivíduos que o realizaram tendem a permanecer coesos por toda a duração do ciclo agrícola. Cria-se, portanto, a noção de duração, fazendo com que se passe “a relacionar, a criar vínculos entre as gerações (...), relações de parentesco, relações de filiação, passando a controlar, portanto, a mobilidade dos indivíduos que, como se sabe, é o mecanismo fundamental para a reprodução dos efetivos humanos das comunidades (...).”; [9]. A preocupação com a continuidade da produção passa a ser uma preocupação com a manutenção do grupo, ou seja, a manutenção de suas capacidades reprodutivas, sendo essencial o papel da mulher enquanto reprodutora. Torna-se necessária, portanto, sua pernanência no grupo. O homem, por outro lado, tendo uma capacidade reprodutora mais flexível, pode circular entre os vários grupos. Estabelece-se, então, a virimobilidade e a gineco-estática.

Não nos cabe aqui o aprofundamento na teoria de Meillassoux, mas trata-se um exemplo de como a constituição das relações entre homens e mulheres é histórica, não sendo puramente natural.

Para o mesmo fim, podemos citar também Margaret Mead. Em seu livro “Sexo e Temperamento”, a autora realiza um relato sobre a vida de povos primitivos, colocando em xeque os conceitos tradicionais sobre homens e mulhers. Afirma:

“Com a escassez de material para elaboração, nenhuma cultura deixou de apoderar-se dos fatos de sexo e idade de alguma forma, seja a convenção de uma tribo filipina de que o homem não sabe guardar segredo, a crença dos Manus de que somente os homens gostam de brincar com bebês, a prescrição dos Toda de que quase todo trabalho doméstico é demasiado sagrado para as mulheres, ou a insistência dos Arapesh em que as cabeças das mulheres são mais fortes do que as dos homens.” (grifos meus) [10]

Penso que os destaques falam por si só, mas vale a pena ressaltar: em algumas sociedades, homens desempenham papéis que para nós seriam considerados femininos, como o cuidado de bebês ou o trabalho doméstico. Claramente, não são essas funções naturais do um sexo ou outro.

Ou seja, voltando ao comentário que incitou a criação deste texto: mulheres não são seres pacíficos naturalmente, mulheres são educadas para desempenhar esse papel.

Peguemos, agora, um comentário feito neste post do blog Escreva Lola Escreva:

“’Vamos tornar grosserias na rua inaceitáveis’. Chamando eles de palhaços e outras coisas, e fazendo cara feia? Voltamos àquela conversa do post 'Como fazer com que eles escutem?'. Isso não muda a cabeça de ninguém. Vocês querem puní-los ou educá-los (os que estiverem dispostos a isso)?"

Muito bem. O homem responsável pelo comentário exige um comportamento específico das mulheres que sejam assediadas. Elas não devem brigar, devem educadamente dizer que não gostaram do que lhes foi dito, continuando, assim, em seu papel dócil e amável. À mulher não é permitido levantar a voz, a mão, enfim, reagir a uma grosseria. Esse homem, se alvo de uma brincadeira estúpida na rua, certamente não responderia com um abraço ou algo parecido. Enquanto isso, mulheres não devem fazer “cara feia”, pois isso não educa ninguém. Se alvo de uma grosseria, devemos passar a mão na cabeça do autor e dizer “não faça isso, não gosto, é muito feio, ok?”.

Infelizmente, por melhores que tenham sido as intenções do autor do primeiro comentário (engrandecendo a mulher, colocando-a como “bondosa”), ele é perigoso, pois a lógica por detrás dos dois textos é a mesma: a lógica dominante,que diminui a mulher enquanto sujeito político, limitando sua ação a atitudes condizentes com sua “pureza”. Essa é a “mulher pensada na linguagem romântica das classes dominantes (...), como encarnação das emoções, dos sentimentos, incapaz de resistir” [11] Um modelo de mulher que “implicou sua completa desvalorização profissional, política e intelectual” [12] A afirmação de que mulheres são seres dóceis foi utilizada repetidamente de maneira a depreciá-la, colocá-la fora de posições de liderança, e tratar como anormais aquelas que não se encaixam nesse papel, além de justificar inúmeras atrocidades, como o estupro, pois homens seriam “ativos” e mulheres “passivas”, devendo elas servirem ao homem.

Agora, a citação de Tatcher: “Margareth Tatcher é um homem de saias”. Se essa tentativa de argumentação fosse feita porque ela atua perpetuando o patriarcado de maneira a continuar com seus privilégios de classe, talvez fosse válida, mas, infelizmente, o uso corrente dessa “crítica” não se dá devido às posições políticas de Tatcher per se, mas sim pelo fato de tomar posições de liderança, agressivas. Desse modo, o que seria a crítica a uma pessoa conservadora acaba por exibir um conservadorismo de mesma índole (vale lembrar, porém, que esse “apelido carinhoso” é usado tanto por críticos do governo de Tatcher quanto por admiradores).

Desse modo, é preciso atentar para os diversos preconceitos que aparecem diluídos em nossa sociedade, pois é justamente por estarem diluídos que se tornam mais perigosos. Essa diluição se dá pela des-historicização de fenômenos históricos. É preciso ressaltar que “lembrar que aquilo que, na história, aparece como eterno não é mais que o produto de um trabalho de eternização que compete a instituições interligadas, tais como a família, a igreja, a escola, e também, em uma outra ordem, o esporte e o jornalismo (...) é reinserir na história e, portanto, devolver à ação histórica, a relação entre os sexos que a visão naturalista e essencialista dela arranca (....).
É contra estas forças históricas de des-historicização que deve orientar-se, prioritariamente, uma iniciativa de mobilização visando repor em marcha a história, neutralizando os mecanismos de neutralização da história”.[13]


[1] SAFFIOTI, Heleieth I.B, O Poder do Macho, Ed. Moderna, p. 11.
[2] Idem.
[3] RAGO, Margareth, Do Cabaré ao Lar – A Utopia da Cidade Disciplinar, Brasil 1890 – 1930, Ed. Paz e Terra, p. 82.
[4] Idem.
[5] BEAUVOIR, Simone de, O Segundo Sexo, Ed. Difusão européia do livro, p. 56.
[6] Badinter, Elisabeth, Um amor Conquistado – O Mito do Amor materno, Ed. Nova Fonteira, p. 15;
[7] Idem
[8] GARCIA, Francisco Montero, Ser Social, Dominação e Violência – Um estudo do binômio dominação-violência a partir de uma perspectiva ontológica, com ênfase na questão de gênero. Doutorado em Ciências Sociais, PUC/1999, p. 161.
[9] Idem, p. 162.
[10] MEAD, Margaret, Sexo e Temperamento, Ed. Perspectiva, p. 24.
[11] RAGO, Margareth, Do Cabaré ao Lar – A Utopia da Cidade Disciplinar, Brasil 1890 – 1930, Ed. Paz e Terra. p. 70
[12] Idem, p. 65
[13] BORDIEU, Pierre, A Dominação Masculina, Ed. Bertrand Brasil, p.5.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O "Estupro Corretivo"

“No final, compreendi
que ser uma mulher
é uma luta sem fim
para viver e ser livre.”

(Joi Barrios[¹])

Um assunto pouco tratado na grande mídia em geral, mesmo sendo um gigante atentado contra os direitos humanos, é a questão do “estupro corretivo”. Termo esse que serve para referir-se à ação de estuprar e torturar uma lésbica com o intuito de “corrigi-la” tornando-a heterossexual, uma “mulher”. E, infelizmente, essa prática está configurando-se como recorrente na África do Sul, dado a infeliz freqüência com que ocorre e a negligência das autoridades.

Os dados são alarmantes. Uma ONG local que trata da questão, a Luleki Sizwe, registrou mais de um caso por dia além da completa apatia policial e governamental perante a situação. No ano de 2008, Eudy Simelane, jogadora da Seleção Feminina da África do Sul e militante contra a homofobia, foi encontrada parcialmente vestida, violentada sexualmente e esfaqueada por uma gangue. Quatro dos responsáveis pelo caso foram julgados; dois condenados a prisão e dois inocentados. Ano passado, Millicente Gaika foi estrangulada e estuprada durante 5 horas seguidas.

Além desses casos, em que sabemos o nome e o rosto da vitima, existem outros numerosos que não são noticiados ou mesmo registrados, já que outra prática recorrente é ter seu registro de ocorrência negado em delegacias. A emissora “Sky News” escutou diversas vitimas e mulheres: todas dizem conhecer ao menos uma pessoa que foi vitima do estupro corretivo e afirmam categoricamente que quem se afirma lésbica corre grandes chances de ser morta.
É uma tragédia humanitária, em especial pela denominação de “Nação arco-íris” cunhada para a África do Sul, por ser considerada pela mídia e governos do mundo uma região com a capacidade de aceitar diferenças, mas que apresenta ironicamente os maiores índices de violência contra as mulheres e LGBTTT;

Uma menina nascida na África do Sul tem mais chances de ser estuprada do que de aprender a ler. Surpreendentemente, um quarto das meninas sul-africanas são estupradas antes de completarem 16 anos. Este problema tem muitas raízes: machismo (62% dos meninos com mais de 11 anos acreditam que forçar alguém a fazer sexo não é um ato de violência), pobreza, ocupações massificadas, desemprego, homens marginalizados, indiferença da comunidade — e mais do que tudo — os poucos casos que são corajosamente denunciados às autoridades, acabam no descaso da polícia e a impunidade.[²]”
.
Frente o descaso da grande mídia em noticiar os casos e, sobretudo dos governos, um grupo “AAVAZ.org- O mundo em ação”, que tem por intuito levar através da internet a opinião publica à política global, desenvolveu uma petição online que será entregue ao presidente Zuma e seu primeiro ministro Radebe (ao completar 750,000 assinaturas e já existem cerca de 618,952), exigindo que se considere o “estupro corretivo” e a homofobia um crime de ódio, sua condenação e aplicação imediata de medidas contra a prática, tal qual educação e proteção às vitimas:


Dezenas de perfis de redes sociais, twitter, listas de emails, blogs, têm divulgado esse abaixo-assinado e felizmente a cada dia mais pessoas tomam ciência desse crime hediondo e engrossam o número dos que são contra a prática. Essa é uma luta de responsabilidade global, tanto no que diz respeito a denunciar e divulgar os casos, quanto conscientizar a respeito dos danos do machismo e patriarcado para nossa sociedade e cobrar medidas punitivas aos criminosos.
Por isso pedimos a todos que assinem a petição, que divulguem em suas listas de e-mails, páginas pessoais e similares, e que deixem claro os problemas de continuarmos vivendo sob um regime patriarcal.

Lembrando, também, que devemos, cotidianamente, lutar contra essas situações e que nossa rubrica não pode de maneira alguma nos aliviar a consciência, ou nos ausentar da luta.


[¹]Joi Barrios é uma escritora e ativista filipina. O Título original do poema é "Ang Pagiging Babae Ay Pamumuhay sa Panahon ng Digma"
[²]Recebemos por e-mail o texto da Avaaz,
Pare o estupro corretivo. Você pode lê-lo na íntegra em: http://va.vidasalternativas.eu/?p=3000, Acessado em 30/01/2011